A senadora Esperanza Martínez, do Partido Participação Ciudadana (PPC), afirmou nesta segunda-feira que o movimento cartista já definiu que o senador Patrick Kemper presidirá a comissão especial do Senado criada para investigar a chamada "mafia de títulos", apesar de ela ter sido uma das principais articuladoras da iniciativa. Segundo Martínez, o oficialismo lhe comunicou que caberá a ela a vice-presidência do órgão, mas deixou claro que sua permanência dependerá da existência de uma investigação real, sem interferências políticas.
"Eles já me comunicaram. Querem ter maioria e vão ter a presidência, e me deram a vice-presidência", declarou. A parlamentar disse ter solicitado ao presidente do Congresso, o senador Basilio "Bachi" Núñez, que acelere a instalação da comissão, uma vez que o prazo de trabalho é limitado. "Temos três meses de investigação e já passaram quase duas ou três semanas e ainda não temos a comissão formada", questionou.
Martínez afirmou não ter interesse em disputar cargos dentro do colegiado, mas exigiu garantias para conduzir uma investigação aprofundada sobre os títulos supostamente irregulares que atingem diferentes setores do Estado. "Quero fazer um trabalho sério e não quero que ninguém nos pressione para nada. Vamos buscar a verdade e vamos tentar apresentar os dados que sejam reais", declarou.
A senadora lançou um aviso direto ao oficialismo: "Seja quem for o que está por trás de um título falso, temos que seguir adiante com a investigação. E se não for dessa maneira, então eu vou me retirar da comissão. Não vou estar ali apenas para ocupar uma cadeira". Martínez sustentou que o interesse do movimento cartista em controlar a presidência da comissão pode estar relacionado à magnitude das pessoas potencialmente afetadas pelo escândalo.
"Eu creio que eles sabem que há muita gente implicada, provavelmente inclusive próxima ao poder político hoje em todos os estamentos do Estado", afirmou. Segundo a legisladora, o fenômeno teria alcançado instituições dos três poderes. "É preciso lembrar que há pessoas ligadas à Corte Suprema de Justiça, ao Poder Judiciário. Talvez haja aqui mesmo, no próprio Senado, na Câmara dos Deputados, nos ministérios, fiscais e juízes", apontou.
Para Martínez, o problema deixou de ser um fato isolado e se transformou em uma prática generalizada que afeta a credibilidade do sistema público. "Isso virou um descontrole realmente imoral", sustentou. A senadora alertou que o uso de títulos supostamente falsos ou de origem duvidosa tem consequências graves para a sociedade, especialmente quando os portadores exercem profissões que impactam diretamente a vida das pessoas, como advogados e médicos.
A parlamentar também questionou a proliferação de pós-graduações, mestrados e doutorados obtidos em prazos que considera incompatíveis com uma formação acadêmica rigorosa e vinculou a problemática à habilitação de novas universidades que, segundo ela, não reúnem os requisitos mínimos exigidos. "Na semana passada tentaram aprovar uma nova universidade que, na minha opinião, nem sequer cumpria os padrões básicos. Por sorte, foi barrada. Nem sequer as normas mínimas estabelecidas pela UNESCO são levadas em conta", afirmou.
Martínez apontou diretamente o oficialismo como impulsionador dessas iniciativas e reiterou que sua participação na comissão dependerá da seriedade com que o trabalho for conduzido. "Vamos fazer as coisas direito? Aí estou eu. Vai ser uma farsa? Que fiquem eles", sentenciou. A polêmica se arrasta desde 18 de maio, quando o presidente do Congresso assinou a resolução que criou a comissão especial. A decisão gerou questionamentos porque o senador cartista Patrick Kemper foi colocado em primeiro lugar na integração do colegiado, à frente de Esperanza Martínez, abrindo caminho para que o oficialismo controle a mesa diretora e, consequentemente, a condução das investigações.