Terras do IPS no Chaco são alugadas por valores irrisórios, aponta investigação

Contratos de arrendamento de cerca de 190 mil hectares do Instituto de Previsão Social na região de Teniente Ochoa revelam cánones mensais que chegam a apenas G. 627 por hectare, com vigências de até 20 anos e períodos de carência de 24 meses. Analista econômico alerta para gestão patrimonial deficiente e possível favorecimento.

Uma revisão dos contratos de arrendamento de aproximadamente 190 mil hectares de terras do IPS na zona de Teniente Ochoa, no Chaco paraguaio, expôs uma gestão marcada por preços mínimos, prazos longos e condições altamente favoráveis aos arrendatários. Os valores pagos por hectare chegam a ser inferiores a G. 700 mensais em alguns casos.

O contrato mais barato identificado pertence à Agropecuaria MR5 SA, que explora cerca de 30.558 hectares pagando apenas G. 627 por hectare ao mês. Firmado em 2017, o acordo tem vigência até 2037 e prevê um investimento declarado de G. 33,6 bilhões. O canon mensal total é de G. 19,1 milhões.

Outro caso emblemático é o da La Peregrina Agroganadera SA, que paga aproximadamente G. 675 por hectare sobre 5.271 hectares. Seu contrato, assinado em 2013, permanecerá ativo até 2033, com um investimento de G. 5 bilhões e um canon mensal de apenas G. 3,5 milhões.

Na faixa intermediária aparecem empresas como a Ganadera Algarrobo SA, que paga cerca de G. 1.527 por hectare, e a RS Agroganadera SA, com G. 1.642 por hectare. Alessandro Massagrande figura com dois contratos distintos: um de 2008, com valores próximos a G. 1.534 por hectare sobre mais de 30 mil hectares, e outro de 2021, já com um custo maior, de G. 4.869 por hectare.

Os acordos mais recentes mostram cánones mais elevados, mas ainda distantes dos valores de mercado. A Importcam SRL obteve em 2023 um contrato de 20 anos pagando cerca de G. 4.195 por hectare, enquanto a TAPITI SRL, beneficiada em 2024, pagará aproximadamente G. 6.222 por hectare. Ambos os contratos, no entanto, incluíram 24 meses de carência antes do início efetivo dos pagamentos.

O economista e analista Víctor Raúl Benítez classificou a situação como um "despropósito" e alertou que o IPS parece desconhecer o valor real de seu patrimônio imobiliário. “Podemos dizer que o IPS não sabe o valor do que tem e que não gera com os imóveis a rentabilidade potencial”, afirmou.

Benítez também mencionou a existência de versões não confirmadas de que a entidade possuiria cerca de 400 mil hectares no Chaco, muitos deles cedidos sem custo em troca de melhorias de difícil fiscalização. “É muito provável que exista um clube de amigos, sequazes do poder que administrou o IPS”, declarou, sugerindo que as adjudicações foram negociadas de forma discricionária.

A prática de conceder longos períodos de carência não se limita às terras rurais. O contrato do complexo Paseo Los Árboles, adjudicado a Karim Gulamabbas Ravji Damani, prevê oito anos de carência e mais 24 meses pagando apenas 50% do canon de G. 84 milhões mensais, sem nenhuma certificação de investimento dos G. 69,3 bilhões comprometidos. O Hotel Guaraní, sob gestão da La Gloria Hotelería SA, também recebeu 12 meses de carência e não registra investimentos certificados.