Mais de um ano após Luis Bello assumir a Prefeitura de Assunção, a capital paraguaia continua enfrentando problemas de serviços urbanos, endividamento e denúncias de corrupção herdados ou associados à gestão de Óscar “Nenecho” Rodríguez. A intervenção na Direção de Vialidad, comandada por Óscar Pérez há quase dois meses, ainda não produziu uma mudança visível nas ruas, enquanto os principais responsáveis apontados nas denúncias continuam impunes.
O caso conhecido como “Mafia del asfalto”, documentado pelo ABC Color, investiga o suposto uso de funcionários, máquinas, caminhões, combustível e mistura asfáltica da municipalidade em uma obra privada. O vereador Pablo Callizo denunciou o desvio diário de 80 a 140 toneladas de asfalto e cerca de 1.200 litros de combustível. A administração abriu processo disciplinar contra 20 funcionários, incluindo o ex-diretor Nicolás Duarte, e a Fiscalía formalizou a imputação contra cinco pessoas, quatro delas servidores de baixo escalão. Até o momento, não há condenações dos principais envolvidos.
A coleta de lixo também permanece irregular, apesar da compra de caminhões e da manutenção do aluguel de veículos privados. A Direção de Serviços Urbanos teve cinco titulares em menos de um ano. Nas ruas, moradores continuam convivendo com buracos, sujeira e problemas de pavimentação.
As denúncias de possíveis “caixas paralelas” remontam à gestão de Rodríguez e a períodos anteriores. Vereadores e candidatos opositores afirmam que estruturas de cobrança coercitiva em órgãos municipais desviariam recursos para fins proselitistas, mas essas alegações ainda exigem investigação e não resultaram em condenações. Entre as áreas citadas estão a Polícia Municipal Fiscalizadora, dirigida por Constantino “Tino” Ayala, a Direção de Defesa do Consumidor, comandada por Carlos Morel Gadea, e a Polícia Municipal de Trânsito (PMT).
Johanna Ortega e os candidatos a vereador Bruno Martínez e Maximiliano Seiferheld acusaram funcionários da Defesa do Consumidor de pressionar restaurantes com ameaças de multas. O vereador Álvaro Grau afirmou que autos de infração eram “engavetados”. Já Callizo relacionou a Direção de Vialidad ao uso irregular de recursos municipais em obras particulares. As acusações são objeto de apuração, não fatos judicialmente comprovados.
A crise financeira inclui US$ 22,2 milhões em juros vencidos de títulos municipais, com dívidas das administrações de Rodríguez e Mario Ferreiro. Bello realizou pagamentos parciais, mas ainda não existe um acordo global aprovado pela Junta Municipal. Reclamações foram apresentadas à Superintendência de Valores do Banco Central do Paraguai. A assembleia convocada pela casa de valores deverá verificar o desembolso de G. 41.101 milhões prometido pela prefeitura e discutir a eventual adoção de medidas judiciais. O plano prevê adiar G. 181.048 milhões para março de 2027, com quitação total projetada para 2035.
As obras de drenagem pluvial dos projetos G8 também estão atrasadas. Durante a gestão de Nenecho, G. 512.000 milhões dos recursos dos títulos foram desviados de sua destinação, segundo a denúncia citada na reportagem. Sob Bello, os projetos de Santo Domingo, Abasto e San Pablo alcançavam apenas 35%, 46% e 59% de execução, respectivamente, além de terem excedido os prazos contratuais.
Nas eleições municipais de 4 de outubro, Camilo Pérez é apresentado como candidato do Partido Colorado, ou Asociación Nacional Republicana (ANR), ligado ao Honor Colorado, movimento interno da ANR liderado pelo ex-presidente Horacio Cartes. Embora adote um discurso de mudança, sua candidatura representa a continuidade do modelo cartista — a corrente política alinhada a Cartes — na Prefeitura de Assunção. A lista colorada de candidatos a vereadores acompanha essa aposta de manutenção do controle político da capital.
