A empresa britânica Atome PLC anunciou a decisão final de investimento (FID) para a construção de uma planta de fertilizantes verdes de baixo carbono em Villeta, com um investimento estimado em US$ 665 milhões. O projeto, considerado o primeiro de fertilizantes verdes em escala industrial a alcançar essa etapa mundialmente, está condicionado à aprovação de uma tarifa elétrica preferencial pela Administração Nacional de Eletricidade (ANDE), que deve garantir um preço fixo de US$ 30 por megawatt-hora (MWh) durante 15 anos.
O chefe de Gabinete da Presidência, Javier Giménez, defendeu o acordo tarifário, afirmando que não se trata de um subsídio, pois a tarifa proposta está acima do custo de produção, estimado em torno de US$ 28/MWh. Giménez destacou que a tarifa é inferior à cobrada de outros setores industriais, como a mineração de criptomoedas, que paga cerca de US$ 42/MWh, mas ressaltou que a ANDE já opera com diferentes faixas tarifárias conforme o segmento do consumidor.
O presidente da ANDE, Félix Sosa, afirmou que não há pressões do Executivo para a assinatura do contrato e que a estatal está avaliando criteriosamente as condições financeiras para proteger suas finanças. Ele explicou que a diferença entre a tarifa solicitada por Atome e a tarifa média cobrada atualmente de grandes consumidores, como empresas de inteligência artificial que pagam cerca de US$ 44/MWh, representa um desafio a ser compensado.
Uma das alternativas em análise para compensar essa diferença é o uso dos fundos sociais da Itaipú Binacional, que poderiam ser destinados a investimentos em infraestrutura elétrica para fortalecer o sistema nacional. Giménez explicou que a compensação pode chegar a cerca de US$ 100 milhões em obras, permitindo que a ANDE mantenha sua saúde financeira enquanto apoia a instalação da planta.
Além dos aspectos tarifários, o governo enfatiza os benefícios econômicos do projeto, que inclui a substituição de importações de fertilizantes, geração de empregos e movimentação logística durante os anos de construção, estimados em cinco anos. Giménez ressaltou que é preferível vender energia para uma indústria que investirá cerca de US$ 1 bilhão no país do que continuar cedendo energia excedente a Brasil a preços simbólicos, em torno de US$ 10/MWh, conforme previsto no tratado de Itaipú.
O contrato atual entre a ANDE e Atome, firmado em 2022, prevê uma tarifa aproximada de US$ 33/MWh, ajustada conforme o câmbio. A empresa busca agora uma tarifa fixa e previsível para os próximos 15 anos, o que é fundamental para garantir a viabilidade financeira do empreendimento. Sosa afirmou que o presidente Santiago Peña não permitirá a assinatura de um contrato que prejudique a ANDE ou a população.
Sobre a Atome PLC, seus principais diretores incluem Peter Levine, presidente da empresa, que tem histórico ligado à President Energy PLC, companhia britânica envolvida na exploração de petróleo no Chaco paraguaio durante o governo de Horacio Cartes. Levine enfrentou problemas financeiros e ambientais em operações na Argentina, incluindo um derramamento de petróleo. Entre os dirigentes da Atome também estão dois paraguaios com vínculos políticos e administrativos na era cartista, como James Spalding, ex-diretor geral da Itaipú Binacional e ex-ministro da Fazenda, e Juan Pablo Nogués Peña, gerente geral de projetos, com experiência em consultorias para organismos internacionais e assessoria a ministérios paraguaios.
O futuro da planta de fertilizantes verdes depende, portanto, da assinatura do contrato de fornecimento de energia pela ANDE, que está condicionada à aprovação da tarifa preferencial e à definição de mecanismos de compensação para manter o equilíbrio financeiro da estatal. Caso não haja acordo, a instalação da planta poderá ser comprometida, e a energia destinada ao projeto poderá ser redirecionada para outros consumidores, como o setor de criptomoedas.