O governo paraguaio saiu em defesa do contrato de fornecimento de energia elétrica firmado entre a ANDE e a empresa Atome, voltada à produção de fertilizantes verdes em larga escala, após questionamentos sobre a tarifa preferencial concedida ao projeto. O ministro da Indústria e Comercio, Marco Riquelme, classificou a estrutura tarifária como um pilar fundamental para a industrialização do país.
O preço fixado no acordo é de US$ 30 por megawatt-hora (MWh), valor que setores críticos comparam com a chamada "tarifa técnica" da ANDE, superior a US$ 40 por MWh. Em entrevista à rádio Monumental 1080 AM, Riquelme argumentou que as comparações devem levar em conta a eficiência operacional do fornecimento. Diferentemente dos demais consumidores, indústrias de grande porte como a Atome se conectam diretamente a linhas de alta tensão, o que reduz as perdas de transmissão a algo entre 1,5% e 2%, contra até 28% registrados na rede geral da estatal.
O custo médio de geração da ANDE gira em torno de US$ 28 por MWh e, ao se ajustar esse valor pelas baixas perdas de transmissão do projeto, a tarifa de US$ 30 permanece dentro de margens de rentabilidade. Riquelme também apontou que uma redução iminente na tarifa de Itaipú, no âmbito da renegociação do Anexo C do tratado binacional, deve gerar maior rentabilidade para a estatal.
A defesa do governo, porém, não dissipou as controvérsias. O Sindicato dos Trabalhadores da ANDE (Sitrande) afirmou que o presidente da estatal, engenheiro Félix Sosa, teria colocado seu cargo à disposição por se recusar a ceder a pressões do governo para a assinatura de um contrato considerado prejudicial à empresa. Em declaração à imprensa, o secretário geral do sindicato, Adolfo Villalba, comparou a situação a um episódio semelhante ocorrido na ANDE em 2019.
O engenheiro Guillermo López Flores, especialista em temas energéticos, avaliou que o conflito tarifário reflete uma fragilidade estrutural do setor elétrico paraguaio, organizado há mais de 60 anos sem um regulador independente que garanta regras claras e críveis de precificação. Para López Flores, a ausência de institucionalidade é a causa dos choques recorrentes entre decisões políticas, interesses empresariais e critérios técnicos. "Os grandes consumidores diretos pagam tarifas muito mais baixas e estáveis, enquanto as cidades precisam cobrir toda a cadeia de custos e riscos", afirmou.