O ex-parlamentar do Mercosur e engenheiro Ricardo Canese lançou duras críticas à política energética do presidente Santiago Peña, acusando o governo de pretender conceder subsídios milionários a empresas eletrointensivas — como criptomineradoras e indústrias de hidrogênio — em detrimento das micro, pequenas e médias empresas (Mipymes) e do conjunto da população paraguaia.
Com base em dados oficiais da ANDE e do Instituto de Previsão Social (IPS), Canese demonstrou que as empresas nacionais geram 433 vezes mais empregos por megavatio (MW) do que as firmas estrangeiras que o governo busca beneficiar. Segundo os relatórios enviados ao Congresso Nacional, as indústrias eletrointensivas geram apenas 1,58 empregos permanentes por MW. Com uma demanda contratada de 943,9 MW no início de 2026, isso equivale a cerca de 1.491 postos de trabalho em aproximadamente 50 empresas desse tipo.
Em contrapartida, o restante das empresas do país — onde predominam as Mipymes — sustentam 3.295.697 pessoas ocupadas utilizando uma demanda máxima de 4.808 MW, o que resulta em uma média de 685 empregos por MW.
Para ilustrar o que considera uma inversão de prioridades, Canese recorreu a uma analogia futebolística. "O técnico de todo time de futebol do país — mais ainda se for a seleção nacional — jamais premiaria o atacante que converte apenas um gol em todo um ano e deixaria no banco de suplentes quem faz mais de 100 gols por ano", afirmou. "Em futebol somos sérios. Um técnico jamais cometeria um erro assim. Santiago Peña, por outro lado, toma decisões piores e alguns incondicionais ou interessados aplaudem."
O engenheiro questionou os decretos presidenciais que concedem contratos com tarifas subsidiadas por 15 anos às multinacionais eletrointensivas, com preços fixados entre 30 e 44 dólares por MWh. Enquanto isso, o setor produtivo nacional e os cidadãos comuns ficam relegados a pagar tarifas mais altas e sujeitos a reajustes constantes.
Canese classificou como "palavrería vacía" o argumento de que essas corporações atuam como "projeto âncora" para a industrialização do país, afirmando que a estratégia apenas encobre um prejuízo ao erário público. Ele também denunciou que a energia barata das hidrelétricas paraguaias será acaparada por empresas que "nunca ajudaram a pagar as dívidas das binacionais".
Diante desse cenário, o ex-parlamentar exige que os decretos 5.306, 5.307, 5.860 e 5.861/2026 — que foram freados após forte pressão dos sindicatos da ANDE — sejam definitivamente revogados pelo Executivo. Como alternativa técnica, Canese propõe que as empresas eletrointensivas que desejem operar no Paraguai paguem o custo técnico real calculado no decreto 7.551/2017, que varia entre 76 e 83 dólares por MWh, ou se acolham à Lei nº 7.599/2025 de energias renováveis não convencionais para autogerar sua própria eletricidade.
"Diz-se que as EEI são empresas eficientes; então, que demonstrem sua eficiência e gerem eletricidade para si mesmas a um custo menor que o da ANDE", concluiu o engenheiro.
