O julgamento do ex-senador Hernán Rivas por supostamente usar um título falso de advogado expôs falhas generalizadas no sistema de controle de documentos acadêmicos no Paraguai. Rivas, ex-integrante do Partido Colorado (ANR) e da facção Honor Colorado, é acusado de produção e uso de documentos públicos de conteúdo falso, crimes que podem render até 11 anos e seis meses de prisão, segundo a promotoria.
Testemunhas e documentos apresentados no tribunal revelaram que autoridades universitárias assinaram certificados e diplomas sem verificar se Rivas realmente cursou ou foi aprovado nas disciplinas. Óscar Rodríguez Kennedy, ex-decano de Direito da Universidade Sudamericana, admitiu ter assinado os documentos de Rivas dentro do seu carro, em um estacionamento, sem conhecer o ex-senador como aluno ou confirmar a veracidade das informações.
O certificado de estudos atribuído a Rivas indica que ele teria feito seis exames finais em um único dia – algo que Rodríguez Kennedy classificou como "impossível" perante o tribunal. Além disso, inconsistências como notas numéricas que não coincidem com as descrições em letras reforçam as dúvidas sobre a autenticidade do histórico.
Um informe da promotora Teresa Sosa, citado no processo, detalha um "modus operandi" para inscrição de títulos falsos no Ministério da Educação e Ciências (MEC). O documento descreve como diplomas apócrifos, alguns datando de 2000, conseguiram obter registro oficial apesar de não terem sido emitidos por universidades legítimas.
O ministro da Educação, Luis Ramírez, confirmou que o título de Rivas permanecerá registrado no MEC até que haja uma decisão judicial definitiva. Ele reconheceu que o sistema de inscrição é "insuficiente" e anunciou que 283 funcionários do ministério estão sob investigação interna, com 13 diretores já afastados.
Enquanto isso, deputados da oposição pedem punição exemplar para Rivas e alertam que uma eventual condenação pode gerar uma onda de nulidades em processos judiciais nos quais ele atuou como integrante – e até presidente – do Jurado de Enjuiciamiento de Magistrados (JEM).
O caso também trouxe à tona relatos de intimidação. O deputado Raúl Benítez, que depôs no julgamento, afirmou ter recebido ameaças – incluindo uma foto sua com a mensagem "estamos te observando" – quando começou a questionar publicamente a validade do título de Rivas.
O ex-deputado Hugo Ramírez, que propôs Rivas para o JEM em 2020, declarou arrependimento e admitiu que a indicação foi baseada apenas na palavra do ex-senador, sem exigência de comprovação documental. Ele classificou a decisão como "política" e fundamentada no "princípio da boa fé".
