O Paraguai registrou queda em leitura e ciências no PISA 2025, avaliação internacional da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE) aplicada a estudantes de 15 anos. A média caiu de 373 para 352 pontos em leitura e de 368 para 355 em ciências, em relação a 2022. Em matemática, o resultado foi de 334 pontos, quatro a menos; a mudança foi descrita como tecnicamente dentro de margens estáveis por uma publicação que analisou os resultados.
Cerca de 24% dos estudantes alcançaram pelo menos o nível 2, considerado básico pela OCDE, em leitura, e cerca de 24% atingiram esse nível em ciências. Em matemática, foram 10%, contra médias da OCDE de 69%, 74% e aproximadamente 65%, respectivamente. O relatório indica que 77% ficaram abaixo do nível básico em leitura; esse indicador mede habilidades específicas de compreensão textual e não significa, literalmente, que esses alunos não entendam qualquer texto.
Na comparação regional, o Paraguai ficou em 11º entre 13 países latino-americanos, à frente apenas da República Dominicana, com 346 pontos, e da Guatemala, com 337. Uma comparação publicada sobre os resultados caracterizou o recuo em leitura como o mais severo da América Latina, enquanto Chile, com 436 pontos, e Uruguai, com 423, ficaram bem acima.
Os resultados precisam ser interpretados com cautela: o PISA 2025 foi a primeira aplicação digital do Paraguai, e a própria OCDE recomenda cuidado ao comparar provas feitas em computador com as anteriores, realizadas em papel. Participaram 6.510 estudantes de 293 escolas, representando cerca de 82.400 jovens, ou 80% da população de 15 anos. A expansão do ensino secundário para grupos antes menos atendidos também pode ter influenciado parte da queda.
O levantamento mostra ainda que 42% dos alunos estavam em escolas cujos diretores relataram dificuldades causadas pela falta de materiais e pela infraestrutura. Um terço integrava o grupo socioeconômico mais desfavorecido da amostra, e 28% relataram sofrer algum tipo de bullying várias vezes por mês ou mais. Meninas tiveram vantagem em leitura, com 361 pontos contra 343 dos meninos; em matemática, os meninos marcaram 341 contra 326. Em ciências, a diferença não foi considerada significativa.
O uso de tecnologia aparece no debate sobre as causas, mas não como prova de causalidade. Uma reportagem relacionou o retrocesso ao uso de telas, à inteligência artificial, à mudança nos hábitos de estudo e à falta de professores e recursos; o PISA não estabelece que esses fatores tenham causado diretamente a queda. Quarenta e cinco por cento dos estudantes disseram usar chatbots de inteligência artificial para estudar ao menos uma vez por semana, proporção próxima à média de 46% da OCDE.
As críticas também atingem políticas educacionais do governo de Santiago Peña. O programa de leitura Ñe’ēry, lançado pelo Ministério da Educação e Ciências (MEC) em setembro de 2023 com investimento inicial anunciado de US$ 12 milhões, foi questionado por professores, que afirmaram ter comprado materiais para montar bibliotecas e reclamaram do aumento de relatórios enviados às supervisões de zona — estruturas administrativas regionais que acompanham as escolas.
Foram relatadas denúncias de mais de 40 editoras e da Academia de Língua Guarani sobre a compra, aprovada por Luis Ramírez por meio de Itaipu, de livros no valor de US$ 7,3 milhões. As críticas mencionaram falta de desenho pedagógico claro, exigências consideradas excludentes e possível conflito de interesses envolvendo a Atlas Representaciones S.A., dirigida por Fernando Moreira, marido de Silvia “Chichi” Gadea, prima da primeira-dama Leticia Ocampos e prima por afinidade do presidente Peña. Essas alegações não estabelecem, por si só, irregularidade comprovada.
Ramírez afirmou que explicaria os motivos da queda em uma coletiva de imprensa na sexta-feira. Os resultados também levaram a discussões sobre o Ñe’ēry, as compras de livros e condições relatadas nas escolas paraguaias.
