Uma empresa de Singapura com menos de um ano de existência e atividade declarada como comércio atacadista genérico está no centro de uma polêmica envolvendo uma oferta bilionária de energia à estatal paraguaia ANDE. A Imperium Ventures (S) PTE. LTD. ofereceu US$ 70 por megawatt (MW), mais que o dobro do valor de US$ 30 por MW que está sendo negociado com a multinacional Atome para um projeto de fertilizantes verdes.
A oferta foi revelada pelo Sindicato de Trabalhadores da ANDE (Sitrande) e por um representante da própria Imperium, que acusaram o governo de ocultar a proposta para favorecer a Atome. O presidente da ANDE, Miguel Báez, negou a acusação.
Segundo o ABC Color, documentos legais e societários analisados pelo jornal indicam uma estrutura societária opaca. A Imperium Ventures foi constituída em Singapura apenas em 24 de setembro de 2025. Seu endereço registrado é compartilhado por um grande número de outras empresas, o que, segundo a plataforma companies.sg, pode indicar um serviço de domicílio social ou escritório virtual. A própria plataforma, que reproduz dados da autoridade registral de Singapura ACRA, ressalva que isso é apenas um indício a ser verificado, não uma conclusão jurídica, e classifica a empresa como de "risco médio".
A documentação apresentada à ANDE mostra inconsistências. A empresa aparece com três denominações diferentes: "Imperium Ventures Capital Group (IVG)", "Imperium – Vision Compute AI" e "Imperium Ventures (S) PTE. LTD.", com endereços em Singapura e Nova York. Uma carta de nomeação de seu representante no Paraguai, Aníbal Lovera Talavera Colman, atribui o mesmo número de passaporte a duas pessoas diferentes.
A mesma oferta de um "hiper super data center" para inteligência artificial, com os mesmos nomes de investidores, já foi apresentada, sem sucesso, aos governos do estado brasileiro do Paraná e da Malásia. Em uma reportagem do meio brasileiro Mundo Coop, o responsável financeiro do grupo é nomeado como "Rashad Salam", enquanto nos documentos paraguaios figura Mohamed Abdulsalam.
Em resposta a perguntas do ABC Color sobre as inconsistências, o representante da Imperium no Paraguai, Aníbal Lovera, afirmou que a empresa de Singapura é fruto de uma "reorganização global de marca" e que a verdadeira empresa tecnológica do consórcio é a Better Compute Works Inc., sediada nos Estados Unidos. Ele justificou a mudança do projeto do Brasil para o Paraguai citando as vantagens competitivas e a posse da energia pelo país.
Apesar das explicações, as dúvidas sobre a solidez e a capacidade de investimento de US$ 15 bilhões anunciada pela Imperium permanecem, levantando questionamentos sobre o processo de seleção de grandes consumidores de energia pela estatal paraguaia.
