O Paraguai registrou avanços na diversificação dos investimentos estrangeiros diretos (IED) em 2025, segundo o World Investment Report 2026, da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). Os fluxos globais de IED cresceram 6%, alcançando US$ 1,624 trilhão, mas a distribuição foi desigual: economias desenvolvidas receberam US$ 723 bilhões (11% a mais que em 2024), enquanto os países em desenvolvimento tiveram alta de apenas 2%. A América Latina e o Caribe se destacaram com crescimento de 14%, totalizando US$ 188 bilhões, liderados por Brasil (+23%), Chile e Peru, que dobrou seus fluxos.
O relatório da UNCTAD destaca o Paraguai como um dos países sem litoral que mais atraíram capital externo, com aumento de 40% nos investimentos em conjunto com a Bolívia. Projetos greenfield — novas fábricas ou expansões — somaram US$ 540 milhões no setor de telecomunicações, impulsionados pela oferta de energia hidrelétrica barata. O documento ressalta que, embora economias sem saída para o mar enfrentem desafios logísticos, o Paraguai tem se beneficiado de investimentos em energia renovável, infraestrutura e tecnologia.
Um estudo do Banco Central do Paraguai (BCP) e do Fundo Latino-Americano de Reservas (FLAR) reforça essa tendência. Entre 2008 e 2024, o país recebeu em média US$ 590 milhões anuais em IED, equivalente a 1,6% do PIB. A origem dos capitais também se diversificou: de 39 economias investidoras em 2008 para 68 em 2024. Os serviços não financeiros concentraram 44% dos fluxos acumulados, seguidos pela indústria (26%), serviços financeiros (20%) e setor primário (10%). Telecomunicações, transporte e atividades imobiliárias lideraram os investimentos, com destaque para o crescimento recente em serviços de informação.
Para consolidar essa trajetória, o Ministério da Indústria e Comércio (MIC) lançou a "Revolução Industrial", estratégia alinhada ao plano de governo do presidente Santiago Peña. O ministro Marco Riquelme explicou que a iniciativa busca transformar a mentalidade econômica do país, atraindo investimentos de grande escala e gerando empregos de maior valor agregado. "Não se trata apenas de um objetivo econômico, mas de um resgate da capacidade produtiva paraguaia para competir globalmente", afirmou.
A estratégia se baseia em três pilares: acesso a financiamento para a indústria, ordenamento territorial e formação de mão de obra qualificada. Riquelme criticou a falta de produtos financeiros adequados para o setor industrial, em contraste com o agronegócio e a pecuária, e alertou que apenas 40 dos 263 distritos do país possuem planos de ordenamento territorial, o que gera insegurança para investidores. No campo educacional, o foco é capacitar trabalhadores para indústrias tecnologicamente avançadas.
O MIC também coordena o Plano de Aceleração Econômica Paraguay 2X, que visa duplicar o PIB nacional. A iniciativa identifica 27 setores com vantagens competitivas, como energia, logística e manufatura, e prevê 400 ações de reforma normativa e institucional, envolvendo ministérios como Economia, Obras Públicas e a estatal de energia ANDE. Riquelme destacou a necessidade de mecanismos como tarifas elétricas em dólares e contratos de fornecimento de energia de longo prazo (até 15 anos) para viabilizar projetos industriais de US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão, atraindo financiamento internacional.
O fortalecimento institucional, especialmente da ANDE, é apontado como crucial para o próximo salto industrial. "Precisamos de regras claras e estabilidade para que o Paraguai se torne um destino confiável para investimentos de grande porte", disse o ministro. A UNCTAD reforça que o sucesso da região dependerá da capacidade de converter recursos naturais e oportunidades nas cadeias globais em fluxos de capital mais estáveis e diversificados — um desafio que o Paraguai busca superar com políticas setoriais e reformas estruturais.
