O Sindicato de Trabalhadores da ANDE (Sitrande) anunciou que pretende ampliar os protestos contra o plano energético do governo de Santiago Peña e exige garantias de que os projetos de criação de um Ministério de Energia, Mineração e Hidrocarbonetos e de um Ente Regulador de Energia (ERE) não serão enviados ao Congresso ainda neste ano.
Adolfo Villalba, secretário-geral do sindicato, afirmou que a mobilização continuará porque uma reunião com o governo, realizada na sexta-feira, terminou sem avanços. A proposta oficial foi criar uma mesa de diálogo em troca da suspensão dos protestos, mas o sindicato recusou. A entidade afirma que as iniciativas poderiam reduzir a autonomia da ANDE, estatal responsável pela geração, transmissão e distribuição de eletricidade no Paraguai.
O governo ainda não apresentou, nos materiais analisados, um texto legislativo aprovado que permita confirmar os efeitos institucionais atribuídos pelo sindicato ao ERE. Por isso, as acusações de que a mudança abriria espaço para negócios privados ou favoreceria investidores estrangeiros permanecem como a posição de Villalba, e não como fatos comprovados.
A disputa ocorre paralelamente às negociações sobre a tarifa de Itaipú e sobre o acordo operacional que define como o Paraguai utiliza sua parcela de energia. Pelo Anexo C do Tratado de Itaipú, cada país tem direito a 50% da geração; a energia não utilizada por uma das partes deve ser cedida ao outro país em condições preferenciais. Para Pedro Ferreira, ex-presidente da ANDE, a prioridade deveria ser garantir a retirada da parcela paraguaia, em vez de concentrar o debate em uma tarifa de médio prazo.
O governo paraguaio, porém, defende uma tarifa acima do custo de produção para manter recursos destinados a obras, programas sociais e projetos de desenvolvimento. Justo Zacarías Irún, diretor paraguaio de Itaipú, disse que a intenção é estabelecer um esquema para três a cinco anos, a partir de 2027. O custo de produção informado é de US$ 19,28 por kW/mês, enquanto uma tarifa de US$ 15 é apontada como uma possibilidade defendida pelo Brasil, embora Zacarías tenha negado a existência de uma proposta formal nesse valor.
O acordo tarifário provisório atual termina em 1º de janeiro de 2027. As conversas formais devem ganhar força depois das eleições gerais brasileiras e das eleições municipais paraguaias, com uma possível definição em novembro, segundo a previsão de Zacarías. A tarifa vigente garantiu ao Paraguai recursos adicionais estimados em US$ 1,25 bilhão por ano.
Ferreira criticou a falta de debate sobre a destinação desse dinheiro e alertou para o risco de uso discricionário em período eleitoral. Ele defendeu investimentos em conversores de frequência, painéis solares e na conclusão da linha de transmissão de 500 kV entre Yguazú e Valenzuela. Villalba também afirmou que a prioridade deveria ser o Plano Verão, o programa de investimentos da ANDE e o reforço da infraestrutura elétrica.
O sindicato anunciou que buscará apoio de organizações sociais, camponesas e outros gremios para uma manifestação no centro de Assunção, que poderá reunir de 10 mil a 20 mil pessoas. Apesar da escalada do conflito, Villalba garantiu que equipes de plantão continuarão trabalhando para preservar o fornecimento de eletricidade.
