Javier Giménez, chefe de Gabinete da Presidência do Paraguai, afirmou que não vê conflito de interesses em relação ao cargo de Juan Pablo Nogués Peña, primo do presidente Santiago Peña e gerente de projetos da Atome, no Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (Conacyt). Giménez também descartou conflito caso a companhia leve uma disputa contra o Estado a instâncias internacionais.
Nogués representa o Ministério da Indústria e Comércio (MIC) no Conacyt. Giménez defendeu sua indicação pelo currículo acadêmico — com formação em engenharia, mestrado em Stanford e doutorado em Princeton — e disse que a função no conselho é honorária e se limita à análise e ao debate de projetos científicos e tecnológicos. Segundo ele, o Conacyt não decide tarifas de energia nem acordos com o Estado.
A explicação não abordou a sequência de nomeações presidenciais relatada no caso: Nogués foi nomeado em 2023 e novamente em novembro de 2025. Giménez não esclareceu essas duas nomeações. A segunda teria ocorrido 15 dias depois de a Atome pedir à ANDE, estatal de energia elétrica, uma tarifa de US$ 30 por megawatt-hora (MWh).
A Atome pediu uma tarifa de US$ 30/MWh, posteriormente fixada para o hidrogênio verde pelo Decreto 5.307. O decreto também faz parte de uma disputa sobre os decretos 5.306 e 5.307, assinados por Santiago Peña em janeiro de 2026 e revogados em junho, após pressões. Um relatório técnico elaborado pelo MIC em dezembro de 2025 serviu de base para os atos.
A Atome comunicou um aviso de controvérsia em 17 de setembro. Seu assessor jurídico, Jorge Gross Brown, afirmou que a empresa pode recorrer ao Centro Internacional para a Resolução de Disputas sobre Investimentos (CIADI), com base no tratado bilateral de investimentos entre Paraguai e Reino Unido, sem precisar de contrato firmado sob o decreto revogado. O prazo de negociação de três meses venceria em meados de dezembro.
O Sindicato de Trabalhadores da ANDE (Sitrande) pede a renúncia de Nogués e do ministro Marco Riquelme e avalia apresentar denúncias à Controladoria e ao Parlamento. Seu secretário-geral, Adolfo Villalba, afirma que a Atome busca tarifas reduzidas e fixas por 15 anos, sem reajuste. O advogado Jorge Rolón Luna questiona a compatibilidade entre a função pública e o cargo executivo na empresa; ele afirma que conselheiros do Conacyt têm posição equivalente à de vice-ministro e aponta possíveis violações legais. Essas são alegações do sindicato e do advogado, não uma conclusão judicial.
Nogués teria informado que deixou o Conacyt “desde maio”, mas ainda aparecia na lista do conselho como titular para o período de 2025 a 2027. O MIC não informou a data da saída.
